A desconstrução dos intermediários

A WikiLeaks mostra ao mundo como a tecnologia que permite a comunicação em redes pode ajudar no aprofundamento do processo democrático. Se a Internet continuar livre e, sobretudo, neutra, poderemos ainda contar um bom tempo com as mudanças culturais, políticas e sociais provocadas – mas não num processo “cartesiano” de causa → efeito – pelas trocas propiciadas por essa tecnologia. A tentativa de cerceamento e de perseguição por parte daqueles que têm (?) o controle hoje das informações ajuda a revelar a importância deste momento, ainda que só possamos fazer discursos mais elaborados sobre ele no futuro, onde se perceberá também que a WikiLeaks faz parte de um processo maior.

Apesar de discordar de Assange quando ele fala de “Verdade”, devo reconhecer que o acesso direto aos documentos que servem de base para os discursos jornalísticos produzidos pela WikiLeaks e por seus colaboradores – num processo que ele chama de “jornalismo científico” – são fundamentais para a pluralização dos atores com voz nas discussões que irão permitir a construção do mundo futuro. Por outro lado, é importante lembrar nesse momento que outras áreas do conhecimento – como exemplo a História – permitem o acesso direto às suas fontes, sem que com isso se possa dizer que os “profissionais” da área deixaram de fazer discursos e se comece a dizer que são portadores da “verdade”.

A questão, no meu entendimento, é que, apesar da pluralização destes, os intermediários continuam existindo. Neste processo, a WikiLeaks e seus associados continuam a ser intermediários. Isso, no entanto, não me deixa menos animado com o processo. Estamos num momento de desconstrução de velhas estruturas, de inserção de novos atores no cenário da construção das percepções – do imaginário – e isso reforça o caráter dialógico tão fundamental ao aprofundamento da Democracia.

Enfim, o que importa é continuar acreditando que o aprofundamento desse processo tem como um de seus alicerces a liberdade de usar e criar sobre as novas tecnologias, diminuindo as desigualdades e distâncias entre os que produzem e os que são influenciados pelos discursos, onde cada vez é menos necessário ter para poder.

Fiquem com o texto introdutório do blog de Natalia Viana que, em uma parceria entre CartaCapital e WikiLeaks, trará informações sobre os documentos liberados pela segunda em primeira mão ao público brasileiro. Não deixa de ser um intermediário, mas faz parte desse processo de aproximação entre “construtores de discursos”.

Na linha de frente – Por Natalia Viana

Olá a todos,

Começo este blog aqui na CartaCapital  para contar um pouco o que tem sido essa empreitada em parceria com o projeto mais revolucionário do  jornalismo investigativo mundial – o WikiLeaks. Como outros jornalistas independentes de todo o mundo, tenho colaborado com a publicação dos documentos. Com base neles, estou escrevendo matéria diárias para o site.

Não é à toa que o WikiLeaks  está sob ataque.  É algo novo, com o qual os poderes não sabem lidar. Enquanto escrevo essas linhas o fundador Julian  Assange está preso, sem contato com seus colegas. Todos os que estão escrevendo para o site, como eu, têm que lidar com links que quebram, endereços que saem do ar, grampos e  ataques hackers de todo tipo. O dinheiro foi congelado.

Aqui neste blog vou ter a certeza de que o conteúdo inédito vai sair em primeira mão. E também vou dividir essa experiência na linha de frente do jornalismo.